Sobrenatural – Parte IV

Meu delírio foi interrompido por Ângela, uma das enfermeiras:
- Dr. Jairo, está tudo bem com o senhor? Você está pálido!
- Estou bem sim, obrigado, até hoje não consegui me acostumar com crianças morrendo. Tão jovens, tão inocentes. Como Deus permite que algo assim aconteça?
- Olha, Dr., os desígnios de Deus só a Ele pertence. Estou bem certa que Ele tem seus motivos.
- É, acho que você tem razão não nos cabe questionar a vontade d’Ele.
O restante do dia não foi nada agradável. Aquela visão não saia da minha cabeça. Tive que fazer um esforço tremendo para poder atender os pacientes corretamente. Pensei em falar com o Marcos novamente mas ele já havia saído.
Por mais que eu tentasse esquecer o assunto não conseguia. Deve realmente ser estresse, eu tenho andado mesmo muito cansado. Resolvi relaxar um pouco, meu plantão ainda estava no meio, tinha muita coisa pela frente. Fui me deitar um pouco.
Não sei por quanto tempo dormi, mas consegui descansar um pouco.
Fui acordado por uma enfermeira:
- Dr. Jairo, uma emergência, estão precisando do senhor.
Levantei-me e fui para a enfermaria, a correria estava bem grande.
- O que aconteceu? – Perguntei.
- Um tiroteio entre policiais e bandidos. Três feridos, um policial, e dois caras maus. Um deles em estado grave. Poucas chances de sobrevivência.
Acabei ficando com o caso mais grave.
Fizemos de tudo para que ele sobrevivesse, mas um tiro no peito e outra na cabeça dificultam as coisas.
- Hora do óbito 23:10. Como os outros estão? – Perguntei.
- O policial está bem, o assaltante está na cirurgia ainda.
Assim que todos saíram vi uma movimentação próxima ao corpo. Pensei que ele pudesse estar vivo, mas quando olhei vi sombras se movendo. Elas tomaram uma forma bizarra e se aproximavam do corpo, comecei a ouvir gemidos, depois gritos, eram gritos de agonia e dor. Eu estava completamente paralisado, não sabia o que fazer.
As sombras alcançaram o corpo, enfiaram as mãos nele e arrancaram o que imagino ser sua alma. Um olhar de dor assustador se apresentava na face do homem e então ele gritou:
- Não, por favor, não me levem. – Ele olhou para mim e gritou: – Me ajude, por favor! Não deixem que me levem.
Seus gritos eram agonizantes, e sua aparente dor era tremenda, mas nada poderia me preparar para a risada que ouvi em seguida. Não sei nem como descrevê-la, mas senti um imenso frio na barriga. Aquelas risadas maldosas, demoníacas que vemos nos filmes não se comparam ao som que eu ouvi, nem de perto.
A alma foi arrastada para um buraco negro que se abriu, quando as sombras ficaram próximas dele, garras saíram de dentro e arrancaram a alma que estava de posse das criaturas, um último grito pode ser ouvido e de repente tudo voltou ao normal.
Sentei-me no chão e chorei.

Outras partes desse conto podem ser encontradas em Contos.

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